Síndico e Conflitos de Airbnb: Guia para Gestão Condominial
As plataformas de locação por temporada, como o Airbnb, trouxeram novos desafios para a gestão condominial. A convivência de moradores fixos com inquilinos temporários pode gerar conflitos, exigindo atuação estratégica do síndico para proteger o condomínio e seus moradores, conforme a legislação brasileira.
Locação por Temporada em Condomínios: Aspectos Legais
A Lei do Inquilinato (Lei nº 8.245/91) define locação por temporada como aquela destinada a residência temporária, com duração de até noventa dias. Contudo, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), no Recurso Especial nº 1.819.075/RS, entendeu que a locação por temporada via plataformas digitais, com característica de hospedagem atípica, desvirtua a finalidade residencial do imóvel. Assim, essa modalidade pode ser proibida se houver previsão expressa na convenção condominial.
O síndico deve verificar a convenção e o regimento interno do condomínio. Havendo proibição ou restrição à exploração econômica das unidades para hospedagem, o síndico tem base legal para agir. Caso contrário, a atuação se limita à aplicação das normas de convivência e segurança. O Código Civil (Lei nº 10.406/02), artigos 1.331 a 1.358, estabelece as diretrizes para a propriedade em condomínio, reforçando o respeito às normas internas e ao sossego.

A gestão de encomendas na portaria traz praticidade e segurança para a rotina do condomínio
Para uma gestão eficaz, o síndico deve dominar:
- Regras Condominiais: Conhecimento aprofundado da convenção e do regimento interno.
- Legislação: Compreensão do Código Civil e das decisões do STJ.
- Monitoramento: Utilização de câmeras de segurança para registro de eventos.
- Canais de Comunicação: Livro de ocorrências, e-mail do condomínio ou aplicativo.
Roteiro para Gerenciar Conflitos
A resolução de conflitos de locação por temporada pode levar de uma semana a vários meses. Para isso, são essenciais: convenção e regimento interno, Código Civil, formulários de notificação, câmeras de segurança, livro de ocorrências e sistema de comunicação condominial. O objetivo é resolver o conflito, manter a ordem e minimizar futuros incidentes.
1. Registro Formal da Reclamação
Qualquer queixa sobre locatários de temporada deve ser formalizada. O condômino lesado deve registrar a ocorrência (livro de reclamações, e-mail ou aplicativo), descrevendo o fato, data, hora e, se possível, apresentando provas (fotos, vídeos, áudios). A formalização valida a reclamação.
2. Análise e Notificação do Proprietário
Com a reclamação formalizada, o síndico deve analisar a gravidade e veracidade dos fatos. Comprovado o descumprimento das regras (barulho, uso indevido de áreas comuns, danos), o proprietário da unidade alugada deve ser notificado formalmente.

O registro eficiente de encomendas garante organização e segurança no recebimento de entregas para os moradores do condomínio
A notificação deve conter:
- Descrição detalhada da infração.
- Data e hora da ocorrência.
- Referências às normas violadas (Convenção, Regimento Interno ou Código Civil).
- Prazo para regularização (se aplicável).
- Alerta para sanções cabíveis.
3. Advertência e Multa
Se o problema persistir ou houver reincidência após a notificação, o síndico deve aplicar as sanções da convenção condominial. O primeiro passo é a advertência formal. Em caso de continuidade da conduta inadequada ou infração grave, a multa pode ser aplicada. As multas devem estar previstas na convenção ou regimento interno, com valores e critérios específicos. O artigo 1.337 do Código Civil permite multar condômino antissocial em até dez vezes o valor da cota condominial, dependendo da gravidade e reiteração da conduta.
4. Assembleia Geral e Medidas Judiciais
Em casos de reincidência contumaz ou infrações que perturbem a ordem condominial, o síndico pode levar o caso à Assembleia Geral. A assembleia pode deliberar sobre medidas mais drásticas, como multas severas (art. 1.337 do CC) ou ações judiciais para proibir a locação por temporada, se a convenção não a permitir e houver entendimento majoritário dos condôminos, reforçando o entendimento do STJ. Todas as deliberações devem ser registradas em ata.
Se as tentativas de resolução interna falharem, e a convenção proibir a locação por temporada ou o proprietário persistir em violar as normas, o condomínio pode ingressar com ação judicial. Isso pode incluir ações de obrigação de não fazer (para impedir novas locações por temporada), cobrança de multas ou ações indenizatórias por danos. A decisão do STJ é um forte precedente para barrar essa modalidade de locação quando há previsão expressa na convenção.
5. Documentação do Processo
É crucial manter registro detalhado de todas as etapas: cópias de reclamações, notificações, advertências, comprovantes de entrega (AR, e-mails com confirmação de leitura), atas de assembleia e comprovantes de multas. Essa documentação é fundamental para comprovação em juízo ou defesa da atuação do síndico.



